Passada a porta entra-se num átrio, a antiga portaria, podendo observar-se na parede da esquerda o lugar da “roda”, ponto de comunicação com o exterior, para abastecimento da casa, saída e entrada de correspondência, etc.

Na sala contígua à portaria conservavam-se em meados do século passado, retratos a óleo de D. Lázaro Leitão Aranha, de duas sobrinhas do fundador (as quais muito demandaram com a justiça depois da morte de seu tio) e, ainda, um retrato do rei D. João V.

À direita do átrio abria-se a igreja onde, na antiga capela mor, se guarda, ainda, o túmulo do fundador do Recolhimento, o cónego Lázaro Leitão Aranha. De referir que a igreja dispunha de belíssimos retábulos encomendados em Roma que embelezavam o altar-mor e duas capelas laterais, os quais entretanto levaram sumiço ou apodreceram com o tempo...

Actualmente o espaço, como se vê, é ainda utilizado como capela para os utentes deste estabelecimento.

Antes de falarmos sobre a história deste edifício, podemos contemplar o túmulo de Lázaro Leitão, assente em dois leitões de mármore cinzento e decorado num dos lados da arca tumular com um busto seu e do outro lado com o seu brasão. O túmulo ostenta uma exuberante inscrição latina, que indica a data da sua morte – 2 de Agosto de 1767 – tinha ele 89 anos.

 

Lázaro Leitão mandara ele mesmo em vida, construir o seu túmulo.

Por sobre o túmulo vê-se, ainda, a grade que dava para o coro do Recolhimento.

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Grande parte do que vou, seguidamente, referir, é baseado num trabalho recente realizado pela Dra. Delminda Rijo, que é o mais completo estudo de investigação sobre a História dos Recolhimentos de Lisboa.

Ora, foi neste local que D. João II, no século XV, fez erguer um edifício destinado às Comendadeiras de Santiago, quando estas abandonaram a anterior Casa localizada a poente da cidade, no sítio de Santos, onde hoje funciona a Embaixada de França, encostada à Igreja de Santos-o-Velho. Estas religiosas passaram, também, a ser conhecidas por Comendadeiras de Santos-o-Novo.

Abra-se um parêntesis para referir que estas Comendadeiras de Santiago eram, em grande parte, viúvas dos militares da Ordem de Santiago que morriam em missões de combate, sendo o seu sustento garantido pelos bens da Comenda de Santiago, daí chamarem-se “comendadeiras”.

Fechando o parêntesis e continuando a história, diga-se que mais tarde, em 22 de Julho de 1689, entraram para aqui os frades capuchos conhecidos por barbadinhos italianos, instituindo um hospício que consagraram a Nª Sra dos Anjos. As comendadeiras haviam, entretanto, transitado para uma nova Casa, aqui bem perto, que passou a ser conhecida por Convento das Comendadeiras de Santos-o-Novo.

Para que os frades pudessem dispor, à vontade, destas instalações, D. João V comprou esta Casa às comendadeiras. Mais tarde, em meados de 1742, quando os frades capuchos deixaram de precisar do edifício – dispunham, agora, de um vasto Convento aqui bem perto – o rei D. João V vendeu por 11.000 cruzados a Casa e os seus terrenos a um famoso cónego Lázaro Leitão Aranha, possuidor de grande fortuna, que aqui instituiu, depois de feitas as necessárias obras, um Recolhimento mantendo a invocação de Nª Sra dos Anjos, destinado a viúvas nobres, pobres e honestas e meninas nobres, sob a protecção régia de D. João V, vivendo em regime de clausura, independentemente de terem ou não professado os “votos”.

O edifício passou a dispor de igreja, sacristia, coro, comungatório, quarenta e duas celas e restantes dependências utilitárias. Aquando da sua inauguração, a 3 de Julho de 1747,  com missa rezada e a que assistiu a rainha D. Mariana de Áustria, entraram solenemente no Recolhimento dez viúvas e sete educandas porcionistas.

O sustento do Recolhimento dependia, entre outras rendas, da doação de dois mil cruzados anuais doados pelo instituidor. Derivado a querelas jurídicas relacionadas com a herança de Lázaro Leitão Aranha, o morgado acabou por passar para a Coroa, em 1802.

O Recolhimento foi passando por diversas vicissitudes, com carências materiais e instalações degradadas, que se iam atamancando.

Em 1945 o Recolhimento foi integrado no Instituto de Assistência aos Inválidos, para acolhimento de viúvas e filhas de oficiais e funcionários do estado.

No dia 2 de Fevereiro de 1955, foi inaugurado o Lar de Nª Sª dos Anjos, como Centro de trabalho para raparigas cegas e que funcionava como uma dependência do Asilo de Velhos de Marvila.

Finalmente, em 27 de Maio de 1962 o Lar foi substituído pelo Centro de Reabilitação Nª Sª dos Anjos para deficientes visuais com cegueira ou baixa visão adquiridas. O modelo de intervenção foi implementado por um perito americano em reabilitação de cegos, enviado pelo Bureau International du Travail, que permaneceu em Portugal 18 meses, dando formação e organizando a estrutura de funcionamento da instituição.

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Duas palavras apenas sobre o fundador do Recolhimento. Lázaro Leitão Aranha, era uma pessoa famosa do século XVIII, que desempenou diversos e importantes cargos públicos e eclesiásticos.

Foi lente de leis na Universidade de Coimbra, Desembargador dos Agravos, deputado da Mesa de Consciência e Ordens, Secretário da Embaixada extraordinária ao papa Clemente XI, em 1716,  cónego e principal da Sé Patriarcal.

Era um opulento proprietário, sendo o fundador do palácio da Junqueira, onde está actualmente a Universidade Lusíada, possuindo igualmente casa no Calhariz, onde foi a sede da Caixa Geral de Depósitos e hoje está instalada a Fidelidade Seguros.

Lázaro Leitão Aranha, faleceu em 2 de Agosto de 1767, na sua casa do Calhariz, tendo sido sepultado nesta Igreja do Recolhimento, em túmulo que mandou construir. 

 

Francisco Xavier Alves

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