Samuel Natário cegou há quatro anos. O céu caiu-lhe em cima, mas não desistiu. Reaprendeu a viver por si e pela sua filha. Esta é a sua história.
 
Ainda antes de o sol nascer, centenas de homens e mulheres avançam, em passo apressado, para a fábrica da Volkswagen Autoeuropa. É o turno da manhã. Os autocarros não param de chegar. Vêm da margem sul, da grande Lisboa e do Alentejo. Entre eles, um elemento novo. Chama-se Yolo, um cão-guia, que encaminha Samuel para o seu posto de trabalho.
 
"Entrei para a Volkswagen AutoEuropa em setembro de 2007, há nove anos. A minha função era operador de produção na linha montagem do «Scirocco» e da «Sharan». Fazia as portas laterais, o capô e a bagageira", recorda, Samuel Silva Natário, de 30 anos, no Departamento de Comunicação, Sustentabilidade e Imagem Corporativa, o seu local de trabalho.
 
O ex-operador de produção tinha uma vida igual à de tantos outros. Em 2012, com 26 anos, estava na flor da idade e tinha tudo para ser feliz: uma filha, saúde, família, amigos e emprego. Não sabia ele que a sua vida estava prestes a mudar. 
 
Em novembro de 2012, percebeu que estava a ver pior. Na altura, recorreu a oftalmologistas que lhe receitaram uma graduação nova. Quanto os óculos chegaram, notou que tinha perdido ainda mais visão. "Continuei em médicos, porque teria que haver algum problema", lembra.
 
Um mês mais tarde, ninguém poderia imaginar pior desfecho. Foi-lhe diagnosticado um quisto aracnóideo, junto do cérebro, que afetou os nervos óticos, o que provocou a atrofia destes, causando cegueira ao Samuel. Foi operado de urgência. "Ao início não foi fácil, tive que passar pela aquela fase do luto. Foi sem aviso, muito repentino", conta.
 
 
 
A reabilitação
 
Em setembro de 2014, Samuel entra para o Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos (CRNSA), propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). A intervenção do CRNSA centra-se na reabilitação de pessoas com cegueira adquirida, mas vai mais além. Presta também apoio pós-reabilitação e garante serviços de orientação e encaminhamento.
 
Neste equipamento, durante 4 meses, o Samuel adquiriu competências motoras, orientação e mobilidade, tarefas do dia-a-dia, aprendeu braille, Tecnologias de Informação, Comunicação e artesanato. 
 
Rapidamente se percebeu que o Samuel era um herói sem capa, pela sua vontade de ultrapassar obstáculos e de aprender, pela recusa em ficar acabrunhado. Com o objetivo de adquirir e aprender a trabalhar com um cão-guia, viajou depois para os EUA.
 
Até que um pequeno milagre aconteceu. Depois da reabilitação o Samuel voltou para a Volkswagen AutoEuropa, onde se readaptou ao posto de trabalho, no Departamento de Comunicação, Sustentabilidade e Imagem Corporativa.
 
"Com uma bengala, nós temos que procurar o obstáculo, temos que procurar a referência. Com o cão é o oposto. Ele desvia-nos dos obstáculos e é muito mais rápido e fácil nos percursos de rua. O Yolo é um amigo e um companheiro", diz, orgulhoso.
 
 
 
Objetivos e rotinas
 
Das 7h00 às 15h30, está a trabalhar. "Levanto-me bem cedo, às 5h00, para apanhar o autocarro. Despacho-me a mim e ao Yolo. Alimento-o. Passeio um bocadinho e venho para o trabalho. Apanho o autocarro de volta. Dou comida ao cão. Vou ao ginásio e recebo a minha filha que vem do colégio".
"O que eu faço logo é preparar o lanche a menina, senão tenho problemas", diz, sorridente. "Dou-lhe o lanche, brinco um bocadinho com ela. Dou-lhe uma banhoca e depois vai jantar a casa da mãe".
 
"A aceitação é uma fase difícil. No início, fui um bocado iludido. Ao fim de um ano, houve um doutor que me disse que tinha que aprender a viver assim. Porque nos próximos três, quatro, cinco anos não havia tratamento para o meu problema. O que ele disse foi: «o céu já te caiu em cima, agora é aprender a viver assim. Pior, já não te acontece». Na altura era o que eu precisava de ouvir. Depois fui à procura, até porque com uma filha, naquele tempo, com dois anos, tinha que fazer alguma coisa por mim e por ela", sublinhou.
 
Desde a reabilitação até a reconversão do posto de trabalho, Samuel Natário destaca as ajudas do Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, propriedade da Misericórdia de Lisboa; da ACAPO; da Escola de cães-guia de Mortágua e da VW Autoeuropa.
 
O jovem, de 30 anos, explica como é possível trabalhar sem ver: "Tenho um programa de voz, de rápida instalação. Trabalho só com teclas de atalho, não trabalho com o rato. Se conseguirmos conhecer bem o teclado. É ganhar destreza. É como tudo, com prática chegamos lá".
 
"Não funciono muito com sonhos. Foco-me mais em objetivos", adianta, Samuel, salientando que "estou a tentar abrir um espaço comercial em Palmela, com os Jogos Santa Casa. Para o próximo ano, gostava de abrir uma associação para ajudar pessoas que necessitem".
 
"Acho que sou uma pessoa positiva. Não podemos deixar de ter objetivos, porque a vida baseia-se nisso", observa, Samuel. 
 
Os testemunhos da SCML e da VW
 
Ana Margarida Magalhães, diretora do CRNSA, recorda que "o Samuel era um jovem diferente do habitual, vinha cheio de segurança, de certezas, muito seguro de si", sublinhando que este processo "faz muita diferença no meio de muitos que nós temos, que tem a ver com a força de vontade, a certeza e os objetivos que o Samuel trouxe". "Voltar a trabalhar" era a prioridade do Samuel, destaca a responsável.
 
 
 
O CRNSA tem uma equipa multidisciplinar vocacionada para a reabilitação de pessoas com cegueira adquirida. Através de várias áreas constroem-se ou reconstroem-se, as necessidades de cada pessoa, explica, Ana Magalhães. A informática, a orientação e mobilidade, atividade motora, competências sociais e o desporto são as que destaca como mais importantes.
 
"As pessoas não pagam para estar no Centro dos Anjos, exceto num ou noutro programa e de forma simbólica", salienta, a diretora, classificando o CRNSA como "uma obra muito importante, útil e necessária. É uma resposta de âmbito nacional. Não há nada equivalente a este Centro em Portugal. Há apenas respostas parcelares. É o centro de reabilitação do país, Ilhas e PALOP.
 
Para João Delgado, chefe do Departamento de Comunicação, Sustentabilidade e Imagem Corporativa da VW Autoeuropa, o sucesso da reintegração do Samuel não tem segredos. Resultou da conjugação de vários fatores. Em primeiro lugar, a sua vontade e determinação. Depois, o facto de conhecer bem a casa, onde está há 10 anos. E, finalmente, "a coordenação e o esforço de cooperação entre todas as entidades envolvidas, desde a SCML à Volkswagen AutoEuropa. "Senão fosse assim, nada disto tinha sido possível", afirma.
 
 
 
Em maio de 2015, o Samuel participou na corrida de atletismo da VW. Isso chamou a atenção dos responsáveis da marca alemã, porque era um colaborador. Nessa altura, o ex-diretor geral da Volkswagen Autoeuropa, António de Melo Pires, quis conhecer o jovem palmelense. Foi então que perceberam, pela atitude do Samuel, que estavam perante alguém que tinha vontade de dar mais. A partir desse dia, começaram a trabalhar para fazer-se a reconversão do posto de trabalho.
O responsável da VW Autoeuropa recorda que o mais curioso foi a adaptação da fábrica a um cão e não ao Samuel. Não era normal as pessoas verem um cão-guia pela fábrica. A própria postura do Samuel, relativamente ao facto de ser cego, ajudou a que não houvesse quaisquer barreiras. "Ele tem uma atitude bastante confortável, franca e honesta relativamente a isso", realça.
 
"A vontade e o empenho movem montanhas, defende João Delgado, considerando que "Samuel é um exemplo. Ficou cego. Não se deixou abater, fez o seu percurso e está a trabalhar".
 
Alma e determinação
 
Simone Fragoso e Jorge Pina, atletas paraolímpicos, são as pessoas responsáveis pela ida do Samuel para o CRNSA. O Jorge indicou-me o Centro dos Anjos como "o melhor sítio para fazer a reabilitação", conta Samuel.
 
A melhor recordação do CRNSA? "Acabam por ser as pessoas, sem dúvida", afirma Samuel, sem hesitação. O jovem palmelense diz que "não gosto muito de fazer autoavaliações. Mas nada se consegue sozinho. A coragem tem muito a ver com o que me rodeou. Se não tivesse para onde me virar, ou pessoas que me ajudassem, não tinha valido de nada".
 
O mais importante do CRNSA é a mobilidade e a orientação. "Com a orientação e a mobilidade ao fim 3 meses, andava um dia inteiro de um lado para o outro com uma bengala", destacando também as tecnologias de Informação e Comunicação como elo de ligação ao mundo. "Foquei-me muito no computador. Foi uma ferramenta útil para voltar ao trabalho. É claro que aprendi, também, a usar um multibanco, a contar o dinheiro. Aprendi a cozinhar em segurança. São coisas que no dia-a-dia são muito importantes. No Centro dos Anjos aprendi a ser autónomo".
 
O Samuel é um herói sem capa, pela sua vontade de ultrapassar obstáculos e de aprender, pela recusa de ficar acabrunhado. É um exemplo. Levantou os braços e foi à luta. Fez o luto. Reabilitou-se. Está a trabalhar. Reencontrou esperança e objetivos. 
 
Como dizia o poeta Vinícius de Moraes: "A vida só se dá a quem se deu".

 

 

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