13 de Maio de 2014


Hoje é dia de Nossa Senhora de Fátima, mas para mim este dia é dia de todas as suas representações. Por isso, hoje é dia de Nossa Senhora dos Anjos. Assim, desejo a todas as pessoas que labutam no Centro as maiores felicidades.


Ao me ouvirem falar entusiasticamente do staff do Centro, os meus netos, Rodrigo e Tiago de 10 e 8 anos, respectivamente, perguntaram-me – "Avô, essas pessoas são bonitas?"


Fiquei sem saber o que responder. Mas lá consegui dizer: "Como calculam, o avô nunca os viu. Mas para mim são as pessoas mais bonitas do mundo! São lindas porque têm o coração cheio de amor pelos outros, sobretudo pelos que sofrem por não poderem ver! São os anjos da guarda dos cegos que frequentam o Centro."


Na realidade, são pessoas extraordinárias que dedicam o seu trabalho a aligeirar as penas dos seus alunos invisuais. Quando ceguei senti-me completamente perdido; não mais poderia ler, passear no jardim, ou fazer as brincadeiras do costume com a querida Gaia. A consciencialização destes factos e de que não poderia acompanhar o crescimento dos meus netos, atirou-me para uma profunda depressão e tristeza. Foi com esforço que consegui ultrapassar esta fase.


Consegui decidindo encarar esta fase da minha vida como um novo desafio - e eu nunca fui pessoa de fugir a um bom desafio! - o maior que já me surgira! Passados dias soube, por mero acaso, da existência do Centro de Recuperação de Nossa Senhora dos Anjos e imediatamente fiz um contacto telefónico tendo sido logo informado de tudo o que precisava para aceder ao centro. Dias depois foi-me marcada uma entrevista e em Abril iniciei a frequência das aulas no centro.


Fiquei desde logo maravilhado com a gentileza com que fui recebido por todos. Os elementos da Direcção, os professores e todo o restante pessoal são de extrema gentileza e dedicação, apaparicando-nos com carinho e boa disposição; frequentemente se dirigem a nós oferecendo os seus préstimos!


Parece milagre o que os professores conseguem fazer de nós! Embora lide com computadores desde os anos 70, o saudoso ZX Spectrum, só escrevia com dois dedos da mão direita enquanto a mão esquerda segurava o cigarro ou a cabeça! Pois agora escrevo com nove dedos! Até há pouco tempo só de pensar que tinha de sair de casa ficava aterrorizado, mas agora desde que tenha o meu Ferrari (a bengala) vou a qualquer lugar.
Semana a semana verifico, com enorme prazer, como tenho evoluído na aquisição de novas competências. De dia para dia torno-me mais autónomo e é quase indescritível a sensação de gratidão e alegria que tomam conta de mim!


Poucos dias depois do início das aulas, uma das nossas professoras disse-me que eu sairia do Centro capaz de fazer tudo menos conduzir! Na altura pensei que era um simpático exagero para me animar, mas agora penso que é possível e tornou-se a minha meta!


Para os que vêem e nunca pensaram nos problemas, por vezes ínfimos, que surgem a qualquer momento no caminho e na vida de um invisual é muito difícil, talvez mesmo impossível, compreender ou, até, imaginar as situações incríveis que por vezes nos aparecem. Os nossos professores «anjos da guarda», ensinam-nos a identificar e evitar a maioria desses problemas, outros reabrem-nos os horizontes do uso do computador, outros ensinam-nos a caminhar em segurança pelas cidades ou campos! As suas enormes competências e dedicação fazem de nós seres humanos mais completos e reabilitados. São anjos que nos fazem acreditar de novo na humanidade e pensar que ainda teremos um mundo melhor, um dia.


Neste momento adorava ser capaz de escrever como mestre Aquilino Ribeiro ou Al Berto para poder fazer o elogio que todos estes Anjos de Nossa Senhora merecem!


Recordo, com prazer e alguma saudade, o meu primeiro dia de aulas: era Abril e o tempo estava chuviscoso, cheguei uma hora mais cedo do que seria necessário e o cheiro do pequeno-almoço invadia o antigo convento do século XV. Fui recebido por uma professora e levado para a sala de convívio por uma amabilissima funcionária através do que me pareceu um terrível labirinto. Deixou-me muito bem instalado num cadeirão e abalou aos seus afazeres, após perguntar se eu precisava de qualquer coisa ou ajuda. Permaneci só durante algum tempo até que começaram a chegar outras pessoas que cumprimentavam e se sentavam. Fui percebendo, pouco a pouco que eram,tal como eu, alunos que aguardavam o início das aulas. Fomo-nos identificando pelos nomes próprios e pouco depois já me sentia integrado. Chegada a hora das aulas, os professores vieram buscar os respectivos alunos e levaram-nos para as suas aulas, em diferentes pontos do edifício. Este espraia-se por quatro labirínticos andares unidos por diferentes lanços de escadas mais ou menos íngremes. Salas, salinhas, saletas e salões unidos por corredores, por vezes bem sinuosos, constituem os referidos andares. Ele são alojamentos para alunos e alunas que habitam longe; refeitório, copa, cozinha, lavandaria, salas para aulas e gabinetes para os professores e toda uma parafernália de lugares para apoio. Há ainda um simpático jardim com uma palmeira e canteiros de flores onde alguns gatos se passeiam ao sol.


Neste vetusto mas simpático monumento, vinte Anjos dedicam-se com afinco e enorme dedicação aos diversos aspecto da nossa recuperação e reintegração social. Aulas de braille permitem que, pouco a pouco, retomemos contacto com as letras; em TIC tornam a pôr os computadores às nossas ordens; em AVD ensinam-nos a lidar com moedas, notas, multibancos, telemóveis, e uma enorme quantidade de actividades da vida diária, como coser botões e bainhas ou cozinhar em segurança. E há ainda a Actividade Muscular e os pré-requisitos para a mobilidade; em mobilidade e orientação somos treinados na utilização de um guia, da bengala e suas técnicas e na construção de mapas mentais de percursos. Enquanto professores e alunos preparam, lado a lado, a autonomia dos invisuais, a Direcção e o Psicólogo organizam, orientam, e ajudam todos e tudo. Mas o convento é grande e com tantas pessoas a utilizar os seus espaços obrigam à colaboração de mais funcionários. Responsáveis pelos dormitórios, refeitório, copa, cozinha, PBX e recepção são também nossos recuperadores. É comovedor assistir a um almoço dos alunos no refeitório: funcionários e professores colaboram na nossa refeição corrigindo silenciosamente os nossos erros. Não é fácil, para quem não vê, encontrar e «engarfar» certas comidas sem tornar a mesa numa autêntica lixeira a céu aberto. Este apoio quase invisível é permanente e está sempre disponível.


Nos primeiros dias não conseguia deslocar-me sozinho dentro da escola, mas, o que noutro local poderia ser angustiante, ali não o foi. Frequentemente, ou um professor ou um dos funcionários vinha junto de nós e oferecia os seus préstimos para nos levar ao WC ou ao refeitório para bebermos ou comermos qualquer coisa. Assim somos permanente e discretamente apoiados, ficando-nos sempre a sensação de que estamos num verdadeiro ninho de amor!


Como a maioria das aulas são individuais e os alunos estão distribuídos em dois grupos ao longo da semana, não conheço todos os que frequentam o Centro neste período. Contudo, tem sido gratificante e muito enriquecedor o convívio com os outros utentes do Centro. São cegos de nascença ou de cegueira recente, ou atingidos de baixa visão e de ambos os sexos. As conversas que temos na sala de convívio revelam marcantes histórias de vida. Ali, na escuridão das nossas cegueiras, fazemos amizades e trocamos experiências e dicas para resolvermos alguns dos nossos problemas. Ali se fazem e desfazem relações de maior ou menor amizade, e ganha-se uma profunda admiração pela humanidade com todos os seus defeitos e qualidades. Naquele, agora muito querido, convento aprendemos, não só a suplementar a visão que já perdemos com as novas competências aprendidas, como também aprendemos que ainda há esperança para a humanidade.


MUITO OBRIGADO CENTRO DE REABILITAÇÃO NOSSA SENHORA DOS ANJOS !!!!

Rodrigo Boto

Julho de 2014

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