Os guerreiros: conseguir viver bem, sendo diferente - reportagem da SCML

Todos os anos, dezenas de pessoas perdem a visão, por acidente ou doença. Da tristeza ao desafio, a reabilitação ajuda-os a recomeçar uma nova vida. Conheça estes lutadores.
 
Na rua, nos transportes e nos espaços públicos é comum ouvir-se “coitado” ou “coitadinho”, para descrever quem perdeu a visão. Nada mais errado. Este é um rótulo que os cegos e a equipa do Centro de Reabilitação do Centro dos Anjos (CRNSA), da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), rejeitam em absoluto. 
 
Disto são exemplos Luís, Ivona e Eduardo, os rostos desta história de quem, a meio da sua vida, deixou de conseguir ver os filhos, a família, os amigos, o sol, a lua e todo aquele mundo que conheciam.
 
Não se deixaram abater, começando, em janeiro, a reaprender a viver no Centro de Reabilitação do Centro dos Anjos, num programa de reabilitação para pessoas que perderam a visão ou grande parte dela.
 
Luís Sângula, 50 anos, angolano, é uma das pessoas que entrou no CRNSA. Estudou Engenharia de Minas de Moscovo, na Rússia, de 1990 a 1996, com uma bolsa de estudo. Trabalhava na Empresa Pública de Águas de Luanda.
 
Começou, agora, uma nova etapa.
 
Pai de quatro filhos e de avô de dois netos, Luís é natural de Malange, mas vive em Luanda. Em 2014, apercebeu-se que estava a perder visão. Primeiro do olho direito, depois do esquerdo. “Foi algo progressivo, mas num curto espaço de tempo”, conta.
 
 
Ainda assim, fazia a sua vida normalmente. “Um belo dia acordei e tinha uma mancha no olho direito que rapidamente se alastrou”, lamenta, o angolano.
 
Começou com um problema de descolamento da retina. A diabetes não ajudou. Na altura, em Angola, os médicos disseram-lhe que era uma situação grave.
 
Quando se apercebeu disso, “foi um choque tremendo”, recorda. Algum tempo depois, foi encaminhado, da Junta Nacional de Saúde [Angola], para o Instituto de Microcirurgia Ocular, em Lisboa, onde foi operado em setembro de 2016.
 
Um dia, numa rua de Lisboa, Luís caminhava apoiado no filho, quando alguém lhe disse que estava a mover-se de forma errada, informando-o que havia uma técnica para o orientar a caminhar na rua.
 
Foi aí que o filho encontrou o CRNSA pela internet. 
 
Já no Centro, Luís diz estar a aprender “coisas maravilhosas”. 
 
“Eu estava psicologicamente em baixo”. Neste momento, “já consigo movimentar-me com a bengala”, diz, sorridente.
 
“Estou a reaprender informática, mobilidade fina, competências sociais e já sei contar dinheiro”, diz, orgulhoso, exemplificando com várias moedas. “Estou também a aprender braille”.
 
“Desde que entrei no Centro, a minha vida melhorou. “Sentia-me uma pessoa inútil e no CRNSA encontrei uma razão para viver”, salienta.
 
Ivona Matos sofreu de miopia desde sempre. Antes de cair escada abaixo, em novembro de 2014, escondeu da família a falta de visão (não via nada do olho esquerdo e pouco do direito).
 
Três dias depois deixou de ver. “Tinha um biombo preto à minha frente”, lastima, a empresária de 67 anos, natural de Lisboa. Na altura, os médicos não sabiam a causa desta situação. Em março de 2015, foi operada. Deixou de ver do esquerdo e vê apenas formas e cores do direito.
 
 
“Ninguém imagina a revolta que se sente”, conta, emocionada.
 
Começou em janeiro a reabilitação. Não fazia ideia que existia este Centro. Já se orienta bem, vai a todo lado. Na cozinha, reaprendeu a cozinhar com segurança e está a trabalhar com o computador. 
Para Ivona, o Centro tem superado as suas expetativas. O seu desejo é voltar a trabalhar.
 
Luís e Ivona são pessoas com os mesmos objetivos e sonhos. Querem trabalhar, ganhar a vida, estudar e ser felizes. Têm vontade, capacidade e competência. No CRNSA reaprendem competências e recuperam a autoestima. 
 
Eduardo Almeida, 70 anos, psicólogo aposentado. Sempre viu mal, devido à miopia. Mas não estava preparado para o que se seguiu. Em 2013, foi-lhe diagnosticada degenerescência macular, uma lesão na mácula.
 
Delicado no trato e atencioso, Eduardo conta que vê, apenas, algumas formas e cores. “Eu ainda consigo ver as suas formas”, conta.
 
 
Não foi fácil para Eduardo aceitar a sua nova condição e a mudança radical na sua vida. Até que, o seu estado de saúde agravou-se, e ficou dependente. Chegou ao CRNSA, através de uma amiga. 
 
“Estou a aprender muitas coisas úteis e quero aprender o máximo”. Já teve aulas de orientação e quer aprender informática e braille.
 
O maior desejo de Eduardo é ser autónomo para se “vestir, lavar e deslocar na rua” e ter uma “janela para o mundo”.
 
“São pequenas vitórias quando consigo ser mais independente, dá-me mais motivação”, explica.
 
Para Renata Salvador, técnica de Reabilitação e Inserção Social, a reabilitação tem como principal objetivo “desenvolver competências às pessoas que perderam a visão (total ou grande parte dela), para melhorar a qualidade de vida, adquirindo autonomias e assumindo um papel ativo na família e na sociedade”.
 
A responsável considera que “a cegueira ou baixa-visão obriga, sempre, a um reajustamento dos sonhos, dos projetos que estavam em curso. No Centro pretendemos que encontrem outros objetivos e sejam capazes de ter uma vida própria”.
 
“A perda da visão abana toda a estrutura, até dos mais fortes, mas a maioria sai daqui com capacidade de recomeçar uma vida diferente, adaptada à sua nova condição”, conclui, Renata.
 
Esta resposta da Santa Casa reabilita pessoas com cegueira adquirida ou baixa visão, mas vai mais além. Presta também apoio durante a pós-reabilitação e garante serviços de orientação e encaminhamento. 
 
17 de fevereiro de 2016